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A (in)separação entre a arte e a política

Uns meses depois da triste conferência de imprensa de abertura do Berlinale, onde Wim Wenders respondeu com o seu pretencioso e infeliz parecer ao ser confrontado com a crítica de solidariedade relativa praticada pela organização do festival de cinema, vemos posições semelhantes tornarem-se comuns quanto a eventos com participação e/ou financiamento israelita, como o festival eurovisão. A separação entre a arte e a política deveria ser um não tema.

Comecemos pela resposta de Wim à imprensa. Depois de uma resposta politicamente correta e dissuasora da produtora Ewa Puszczyńska, Wim tenta ajudar a colega, acrescentando:

“Temos que nos manter fora da política, porque se fizermos filmes dedicadamente políticos então entramos no campo da política. Mas nós somos o contrapeso da política, o contrário da política. Temos que fazer o trabalho do povo, não o dos políticos.”

Aqui está o cerne problemático desta visão: pela lente de Wim, os cidadãos nem sequer são políticos, quando deveriam ser os únicos e verdadeiros políticos. Deixar a política para os "políticos" é o pior da tecnocracia, é em boa verdade deixar a corrupção para os corruptos. Wim vai ainda mais longe ao afirmar que o cinema é mesmo o contrapeso e o oposto da política. Deve o cinema ser o oposto da discussão sobre a organização e direção das nossas vidas? Se isto é um dado adquirido para um dos artistas mais aclamados da sétima arte, se o diz de forma tão cabal, como quem sabe que ninguém terá resposta para tal afirmação, está demonstrada a sua pobreza de vontade. Se os artistas assumirem esta postura, se deixarem de conseguir apontar para a mais vaga alternativa de mundo ou, no mínimo, condenar um dos genocídios mais lentos e cruéis das últimas décadas, quem vai conseguir?

Mudando o foco para a eurovisão, quanto à sua organização não há grande coisa a dizer, há vários anos que se assume como um espetáculo de branqueamento de imagem para estado israelita. O que me desanima é ver o fracasso do boicote feito pelos artistas portugueses ao festival da canção, vencidos pelos aborrecidos do cante. Os únicos participantes que, educadamente, separaram a arte da política e confirmaram a sua presença na eurovisão caso ganhassem, ganharam. Uma bela coincidência. Que este espetáculo de musica medíocre desapareça, que seja enterrado junto com a arte e com a política. Mas atenção: juntos por baixo da mesma lápide, mas em caixões diferentes. Há que separar a arte da política e, ainda com mais urgência, a arte da eurovisão.

-FG