A mesa
A mesa pousava ferozmente no chão. A força aplicadíssima que as suas pernas exerciam sobre a tijoleira era tal que parecia até que o pavimento cedia, mutilando-se, parte da sua materialidade para receber aqueles apoios que, por sua vez, também exigiam sustento. A sua cor não suscitava espanto, dir-se-ia ser a cor de todas as mesas de todas as cozinhas de todas as casas. O material tampouco era excecional, uma madeira qualquer indistinguível, ao olho comum, de tantas outras madeiras, talvez um especialista soubesse caracterizá-la – a sua origem, carvalho, o seu cheiro, cerejeira? No que diz respeito às dimensões, seria capaz de albergar um conjunto de cinco pessoas, seis num dia frio. No entanto, existia, tinha de existir, uma qualquer propriedade que lhe era intrínseca e que lhe conferia aquela imponência que irradiava, aquele peso que era palpável, ainda que nunca tivesse sido quantificado, pois a mesa nunca tinha sido levantada ou movida. Aliás, não há sequer registos do modo como ali fora parar, à cozinha de uma casa numa estreita rua de paralelos com as bordas cobertas de ervas daninhas que, notavelmente, se tinham vindo a propagar de forma profícua, aproveitando fendas e buracos do muro rançoso de um dos lados. Todos os dias, várias vezes, a mesa recebia sem indignação inúmeros compostos que, num intervalo de tempo de uma a duas horas, se iam desintegrando, e no final da ocupação ficava, de novo, apenas o peso próprio. Por vezes, adicionavam-se a esse peso próprio as gramas do ornamento que velava, imaculadamente, a mesa, bem como as da pontual peça artesanal que acolhia, num abraço, umas quaisquer frutas suculentas ou secas – importante este pormenor relatado, pois não sei eu se será ético despir tal monumento das suas ocasionais e cerimoniais vestes. Não vá alguém pensar que a cerimónia começa no momento da refeição – a cerimónia é contemplação. É artifício que cobre a matéria, alterando-lhe a forma e o sentido, elevando-a a sacro objeto. A refeição está destinada ao fracasso, ainda que este não seja reconhecido pelos membros daquela pequeníssima comunidade que reclamava para si alguma parte do antro central, que sofrimento seria o seu, caso descobrissem! – são as suas vozes sussurradas que se ouvem, lá longe, nos escuros da noite e do monte, que são distintos, pedindo, humildemente, que lhes seja garantido, apenas uma vez mais, o assento por baixo do glorioso e purificante retângulo erguido. É verdade que este fracasso conseguiu passar despercebido desde tempos imemoriais, tendo sido construídas à sua volta infinitas paisagens de regozijo e prazer, rios de líquidos apaixonantes que desaguam em mares de enfartamento, florestas cuja carne gera deliciosas substâncias e onde, entre as suas árvores fartas, circulam provocatórios olhares entrecruzados e de agressiva contenção. Ou uma várzea de desgosto que, desconsolada, ainda assim faz as pazes com a ilusão, que mascara a palidez automática do dever. Tudo começou quando, num dia apaixonadamente assolado pela estrela vital, o chilrear afinadíssimo de vários pássaros e a confluência de todas as cores na paisagem permitiram que o aparecimento de uma pequena e discreta fenda, no canto da mesa, passasse despercebido, tendo esta sido avistada somente por uns olhos ávidos e invisíveis. Inicialmente, não dava ares de ter sequer qualquer abertura, tratar-se-ia apenas de uma depressão. O tempo, contudo, assim como erode todo e qualquer material a si exposto – ao contrário do que se possa pensar, não são o vento nem a chuva os responsáveis por este processo – também não poupou a mesa e assim, ao fim de poucos dias, já a ínfima concavidade se ia expandindo, à medida que a matéria se ia deteriorando, deixando expostas as entranhas nunca vistas daquela entidade. Tornou-se numa falha monumental. Ignoro se, durante o tempo do seu desenvolvimento, os habitantes daquela cozinha optavam, conscientemente, por esconder a sua angústia face ao crescimento da cratera, ou se consideravam que seria um fenómeno passageiro, uma quebra momentânea das forças naturais e reguladoras, tentando remediar com um paninho molhado, como se de uma nódoa se tratasse, que misticamente cresce ou se inflama de um dia para o outro. Conta-se que houve, inclusive, a tentativa de contrariar este movimento inexplicável, com uma variedade de produtos líquidos, cremosos, sólidos ou gasosos. Mas nenhuma substância foi capaz de o fazer. Nas mesmas proporções da fissura, a inquietação dos participantes das cronometradas putrefações ia crescendo e crescendo. Os pratos, copos, facas e colheres cambaleavam. Não se mantinham estáticos como dantes, já que também as pernas da mesa se tornaram frágeis, instáveis, incapazes. Estilhaços todos os dias inundavam o chão, num sepulcral velório, chorando a morte de si, loiças ímpares nunca conjugadas harmoniosamente. Sem esquecer os texturados compostos que, até então inseparáveis dos seus temporários lares, se deixavam cair, alegres por experimentarem alguma força que não a de serem transportados ascendentemente. O desespero era da mulher de bata que, invocando algum seu antepassado coveiro, sobrevivia arrumando os restos mortais no seu devido compartimento. Enquanto isso, na mente da figura austera que à cabeceira da – já não mais – mesa sempre se sentava, só vigorava uma linha de pensamento, que poderia ou não ramificar-se em consternações semelhantes: como é que nunca nenhum animal, impingido à obrigatoriedade da ração, mostrou ter dignidade suficiente para contestar o ser servido sempre a mesma comida? As árvores que ao ritmo do vento balançavam, exorcizando partes de si, não pareciam ressentidas com o fim da mesa que podiam ter gerado. Na verdade, em todo o lado reinava a imperturbabilidade – o silêncio que antes se fazia sentir em redor da casa aqui evocada era o mesmo, e a neblina que momentânea, mas assiduamente, saudava os olhos brilhantes por detrás das janelas era incontestavelmente a mesma. Talvez, afinal, a qualidade que conferia à mesa todo o seu poder, agora destronado, seria a de ter a capacidade de participar numa farsa sem dar o mínimo sinal de disso ter consciência, e só agora é sabido que o peso nunca calculado era somente a soma dos pesos que cada ser que nela se sentava carregava.
-LM