Dia de reflexão
Nos dias liberais que correm, parece já ponto assente que a democracia se resume a colocar um papel numa caixa. Esta farsa solene, como uma ida à casa da madrinha para entregar o folar, é fortemente encorajado a qualquer cidadão, como se de algo determinante na sua vida se tratasse. Percebo por um lado que possa ser um ponto alto na vida de domingueiros fanáticos, finalmente o seu dia é reconhecido não só pela igreja, mas por toda a nação, como um dia de compromisso e utilidade, e não apenas como um dia de ócio e improdutividade. Mas vejamos do que se trata: trata-se efetivamente de colocar um papel numa caixa. Há quem argumente que existem vários papeis, o que é verdade, de facto existe um papel para as eleições presidenciais, outro para as legislativas, outro para as autárquicas e outro ainda para as europeias. São, indubitavelmente, vários papeis e reconheço que uns têm caras e outros têm símbolos. Reconheço também que lhes damos o nosso cunho pessoal: a cruz ou o visto, se forem sequer riscados, são rascunhos que apesar de simples nunca são iguais, como uma impressão digital, aliás, mais únicos que isso, ninguém desenha a mesma cruz ou o mesmo visto duas vezes.
Cinismos à parte, é berrante o insignificante papel deste papel. As decisões tomadas em assembleias nacionais e internacionais, nas suas diversas formas, estão protegidas da democracia por uma elevada e burocrática camada de abstração, onde o povo toca com a ponta dos seus cabelos somente em certos momentos desesperantes na história da sua exploração. Este toque, o verdadeiro voto, assume forma exatamente em ações não burocráticas e não solenes, em manifestações, em greves e até mesmo em certos atos classificados de crimes, mesmo não o sendo. É neste tipo de voto que se torna explícito que o povo não votou e não está para esta hierarquia imposta. Amanhã é o verdadeiro dia de votar, ou de desvotar, contra aquilo que não foi a votos e que nos querem impor burodemocraticamente. Vai cair!
-FG