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Foi impossível perceber

Foi impossível perceber, pelo menos naqueles primeiros instantes de um olhar, e de uma mente, que vagueia mas que não é distante, o que a atraiu naquele porco. A verdade é que não lhe saiu da cabeça durante todos aqueles dias em que, achando ainda que nada se alterara no que entendia ser a sua vida, quando abria pela primeira vez os olhos depois do sono longo, escuro e libertador, só pensava em fazer amor com o homem que, sempre mais tarde, acordava ao seu lado. Estranha e incontrolável vontade era esta: fundir o corpo próprio a um outro — alheio mas complementar, imediatamente atingível sem ter de mexer um dedo — até ao ponto em que fossem indistinguíveis e se tornassem numa só matéria quente, muito quente, a ferver, e que, tal qual substância sólida natural, caso alcançasse a temperatura certa, se metamorfoseasse numa essência nova, diferente. Sempre ouvira dizer, de várias bocas, que o porco é esse animal que, entre outras coisas, quando aberto, é um nosso semelhante. Naquele momento, não duvidava disso. Conseguia até imaginar-se a dissecar o que vira uns dias antes e a encontrar naquelas entranhas as suas próprias, apesar de não ter a certeza se a sensação de se ver assim, de forma tão crua, absolutamente espelhada num outro corpo, era reconfortante, petrificante, ou uma mistura dos dois. Ainda assim, nada de estranho surgiu na cabeça dela quando, sentindo, imaginou, pela primeira vez, o seu próprio corpo estendido debaixo da criatura suína. Pareceu-lhe este um acontecimento natural, não fruto de uma alucinação ou desmaio, de um momento de loucura mas, simplesmente, de um constante relembrar daquele porco que vira, dias antes, a caminhar por entre um monte verde boreal, fresco, cheio de outras formas de vida com as quais a criatura maravilhosa mantinha o mínimo contacto. Talvez tenha sido essa pacificidade que a hipnotizou e prendeu ao animal, talvez tenha sido o facto de parecer vindo de uma realidade tão oposta que inimaginável, talvez não tenha sido nada disto, talvez não tenha sido nada. Para além desta impossibilidade de perceber quais as circunstâncias que levaram aquele porco a penetrar a sua alma (ou que circunstâncias levaram a sua alma a ser penetrada pelo porco), acrescentaram-se à sua cabeça tantas outras inquietações à medida que o escrupuloso tempo, que sabe o que faz, passava. Talvez não chegassem a ser inquietações, mas apenas reflexões insistentes que, desde aquele extático dia, faziam a sua aparição inesperadamente e se debruçavam sobre o que quer que estivesse a ser observado naquele momento. A casa do padre era o número vinte e dois. À noite, esta casa de pedra escura, abençoada, dois dois, parecia outra, não a amarela que a luz do dia deixava ver, com as suas árvores, flores, ervas e verdes coloridos, mas sim um antro com tanto de atrativo como de intimidante. Por vezes, quando uma ou duas – entre dezenas – das suas luzes se encontravam ligadas, eram infindáveis os cenários que ela imaginava acontecer por detrás das janelas gradeadas. Acima de tudo, poria o clérigo as mãos na suas, abençoá-la-ia, se soubesse daquelas sensações que experimentava? Enquanto o limbo em que se encontrava, entre a memória viva e a experiência esquecida, não a consumiu, foi capaz de adiar a segunda visita ao lugar do idílio aonde habitava o porco. “Ser capaz” talvez não seja a melhor expressão para caracterizar o domínio que tinha sobre as suas ações visto que, quando deu por si, estava já, passada atrás de passada, de pedra em pedra, sobre um riacho quase seco, mas ainda vivo, cujo fim, progressivamente visível, correspondia ao local onde se encontrava a razão pela qual ela saltitava pela natureza. À medida que avançava por entre as pedras, não prescindia de analisar os seus tamanhos diversos, a forma como brilhavam, mais, ou menos, e se esse brilho era enfatizado pela cobertura de água que algumas tinham, ou se eram os minerais os responsáveis por esse efeito e que, de tão penetrantes, a fizeram questionar com seriedade como seria possível tratar-se de matéria que não vive. Como se impulsionada por uma brisa repentina, deitou-se no chão, que não era chão mas sim uma amálgama de tudo, abriu a boca e tentou dizer alguma coisa. Nada. Virou a cabeça e, mesmo com a perspetiva deformada, devido à posição, conseguiu ver o seu animal. Nada ouvira, nada vira, de nada se apercebera, mas ele estava ali, não perto, não longe, mas à distância necessária para que ela conseguisse, como o fez, com o braço todo esticado, e apenas com a pontinha do dedo, tocar-lhe. Se aquele toque foi perturbador ou não, resta a pergunta. Nada lhe passava pela cabeça à exceção de uma pequena dúvida: se aquela humidade que sentia a escorrer-se-lhe nas pernas era a sua, salgada, se era a outra, doce, rarefeita?
Uma manhã, de aparência e sensação em nada diferente às anteriores, deu por si, com toda a naturalidade, a tentar decifrar no escuro, a todo o custo, as feições do homem ao seu lado e a relembrar o dia em que o conheceu. Como foi bom. Desde essa manhã, em que ainda nem tinha percebido se fazia sol ou chuva, de persianas fechadas, nunca mais viu ou pensou no animal que lhe ocupara a mente durante todos aqueles dias. Contudo, às refeições, quaisquer que fossem, uma vontade insaciável, que a percorria toda, não sabendo qual a parte do corpo que pedia mais, sempre nela surgia – a de comer carne de porco.

-LM