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Uma fábula de fato e gravata

Abrem de rajada as portas, escondo a barriga e não consigo conter a gota de suor que me cai da testa. É uma honra pertencer a esta verdadeira irmandade e chegou a hora do discurso. É importante manter a boa postura e a face com expressão próspera, mostrar um sorriso bem humorado, mas sem exageros que possam remeter a um caráter ocioso. Afinal, apesar de por vezes ser difícil de compreender, os nossos rostos devem transparecer concordância na mensagem transmitida. É importante cultivar o vocabulário e as ideias, no fim de contas ainda somos um partido, mas a confiança na direção é realmente a chave.
O discurso foi fabuloso e não me contive nas palmas. Foi um grande orgulho ver mais uma vez todas as bandeiras frenéticas nos punhos dos militantes. Este candidato emana um imponente cheiro da vitória, atrevo-me a dizer que é o melhor da última década. É um jovem de imagem limpa e já com uma tenacidade que transcende a pouca oposição interna que tem certamente os dias contados.
E como um comboio, no meio deste grande congresso, passa uma hiena num galope desenfreado e leva tudo à sua frente, tomba idosos honorados, mulheres grávidas e, com especial violência, o filho mais velho do presidente da câmara de Braga. Ainda uma pequena criança, coitado. A plateia tenta recompor-se, sem perceber como entra um animal selvagem deste porte num evento organizado com tanto cuidado e segurança, e já o bicho assume a posição de orador e grita de forma jocosa, com os seus olhos maníacos postos na câmara, antes de se desfazer numa longa gargalhada:

E quando vai o povo perceber
Que os vossos fatinhos e gravatinhas
E as arrancadas ladainhas
São costumes de poder?

-FG